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Paulo Queiroz
(.08.2008)
Política em Três Tempos
Os 55% de Sobrinho no Ibope significam quase nada. O problema é a consistência deles
1 – IBOPE VADIO
Claro que os alentados 55% de intenções de votos medidos pelo Ibope em favor do candidato à reeleição para a Prefeitura de Porto Velho, Roberto Sobrinho (PT), conforme divulgado na noite desta terça-feira (19) pela TV Rondônia (Sistema Globo), olhados apenas na frieza da ordem de grandeza que tais algarismos expressam, estão longe de determinar que os demais seis concorrentes devam começar por arrancar os cabelos, enrolar as bandeiras e dar por findos os trâmites da campanha eleitoral. Fosse assim, na eleição passada para o mesmo cargo nesta mesma bat-Capital, o próprio titular destes hoje tão robustos e espetaculares índices é quem teria sido o primeiro a bater em retirada, aí incluído até mesmo o risco de ter cortado os pulsos na hipótese de crença inexpugnável na infalibilidade das pesquisas.
Apenas para refrescar a memória, informe-se que no final de julho de 2004, nestas mesmas margens do Madeira, esta mesma TV Rondônia divulgava o também primeiro levantamento deste mesmo Ibope dando conta de que a disputa haveria de ser decidida entre os candidatos do PSB, Mauro Nazif (36%), e do PSDB, Everton Leoni (23%). Desolados, tanto ou mais do que a atual concorrência, ficaram os candidatos do PL e do desaparecido Prona, respectivamente Oscar Andrade e Ribamar Araújo, empatados em humilhantes 6% de intenções de voto.
Prostrados, mas não tanto quanto o candidato do PT, Roberto Sobrinho. Esse, coitado, só escapou de ficar miseravelmente segurando a lanterna porque o finado Antônio Morimoto, disputando pelo PMN, apareceu com um desconcertante zero, mas apenas um ponto abaixo do desempenho petista. Virou, obviamente, gozação. Inclusive destes “Três Tempos”, que jamais haveria de perder semelhante oportunidade: em cima do lance, resgatou-se aqui um personagem do médico multimídia Dráuzio Varela em “Carandiru” para vaticinar – numa reprodução da exclamação habitual do prisioneiro diante dos casos desesperadores de feridos dando entrada no hospital -“Sem Chances!”.
2 – INSÔNIA À VISTA
Enfim, como depois se pode comprovar, aquela seria apenas mais uma avaliação do Ibope – ou, para não ser injusto, dos institutos de pesquisas de opinião – que haveria de se revelar, na confrontação com os números saídos das urnas, um baita disparate. Para ficar apenas no que ficou registrado pela crônica do pedaço, tornou-se célebre o episódio em que o então deputado federal Chagas Neto, candidato do PMDB ao Senado em 1990, foi dormir eleito pelas pesquisas de boca-de-urna do Ibope e acordou com o barulho da celebração do senador Odacir Soares reeleito pelas urnas propriamente ditas. Ou seja, olhados em seu significado matemático, os 55% de intenções de votos de Sobrinho não valem uma noite perdida de sono.
O que pode deixar a concorrência sem dormir, no entanto, é o zumbido de alguma investigação ligeira sobre uma eventual consistência desse número. Que estará ele expressando? Como explicá-lo? Terá ele alguma plataforma em que se sustentar? Enfim, supondo-o razoável, que terá feito Sobrinho para merecê-lo?
Repare o leitor em sua volta, empreenda o cidadão um périplo pelos bairros e centro da cidade e faça o considerado algum esforço para lembrar o cenário de quatro anos atrás, comparando-o com o que se vê. Seja qual for a direção em que se decida ir, dificilmente alguém caminhará mais do que algumas dezenas de passos sem topar com uma obra municipal em andamento - para não falar doutras diversas que nesses pouco mais de três anos a gestão as concluiu.
E aqui se está falando apenas dos indicativos exteriores da administração, valendo lembrar que pelo que não se vê e normalmente ninguém diz é que a atuação do seu titular deva ser mais valorizada. Ou seja, não obstante até os bagres ameaçados do Madeira estarem enfadados de saber que a Prefeitura está nadando em dinheiro – de que o salseiro de obras é testemunho e corolário -, da posse de Sobrinho para cá não se ouviu falar em qualquer escândalo que tenha feito por justificar esse nome no Palácio Tancredo Neves.
3 – RAZÕES DE FUNDO
Querendo, não há como não encontrar razões para desqualificar a administração. Mas apenas os adversários no exercício da militância política é que se animam à proclamação das críticas. Faz parte do show em andamento. Junto ao cidadão comum - afora os extratos mais pobres (onde, ainda que fosse a pessoa de Jesus Cristo a governar, a natureza injusta do sistema permaneceria excluindo todos de tudo) -, as queixas são pontuais, residuais por assim dizer. Quem quer que se dê ao trabalho de inventariar com seriedade vai verificar que melhoraram muito os serviços de saúde e educação municipais.
Enfim, a cidade está bem cuidada e a expectativa é a de que tais melhorias devam avançar. É só olhar o Plano Diretor do Município, extraído da prática mais democrática de participação popular para assegurar anseios coletivos que habitualmente ficam na retórica. No âmbito da política eleitoral, no entanto, o que mais depõe a favor do prefeito diz respeito ao fato de Sobrinho ter demonstrado que é capaz de cumprir o que promete. Está aí, mostrando-se em realidade, o seu mais ousado compromisso de campanha – o plano de regularização fundiária, sem tirar nem por, o maior do país.
Isto posto, instiga-se o leitor a rememorar os números do Ibope há quatro anos e perguntar-se em que bases estavam assentados os 36% de Nazif e os 23% de Leoni. Constatar-se-á que tais fundamentos eram frágeis e abstratos se comparados com os do prefeito em busca da reeleição. Mesmo assim, o Ibope não errou tão feio assim. Ao final do 1º turno, Nazif sairia das urnas com 30,83% e Everton com 15,71% dos votos válidos.
No mais, outra dificuldade capaz de instalar recalcitrantes muriçocas no pé do ouvido dos adversários de Sobrinho emerge de mais comparações entre a atual pesquisa e a de 2004. Naquela ocasião, a sondagem apontou 15% de indecisos (contra 7% hoje) e 12% de branco-nulos (contra 4% agora). Se esta atual baixa incidência de opacidade não significa decisão e confiança no prefeito, atente-se para esta sua rejeição medida agora, a menor entre todos os candidatos. É, para quem está na condição de vidraça, extraordinário. Mas, definitivamente, tais números a ninguém devem preocupar. A consistência deles é que pode inquietar.
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