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Carlos Macena
(quarta-terça, 16/09/08)
Bombas de ouro
Posto de gasolina hoje em dia é quase tão banal quanto boteco e igreja evangélica picareta, embora dê mais trabalho que o primeiro e menos dinheiro que a segunda. Na década de 80, no entanto, a briga para conseguir abrir um posto era mesmo de foice no escuro.
A reserva de mercado, garantida pela legislação herdada da ditadura, transformava-os em verdadeiras minas de ouro. Só se podia escavar o terreno, enterrar os tanques e colocar as bombas para funcionar depois de obter uma concessão do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) e assinar um contrato leonino com as distribuidoras - aqui funcionavam Atlantic, Esso, Texaco (que já sumiram do mercado), Shell e Petrobras (que oligopolizaram a área) - e que exerciam um poder quase imperial sobre os revendedores.
Como a inflação vivia num galope diário, a data e o valor dos aumentos na gasolina e no óleo diesel eram quase segredo de Estado. Por isso, os donos de posto viviam sob tensão, para tentar evitar que o aumento chegasse e os pegasse de tanques vazios: era descapitalização imediata e falência anunciada.
Assim, começaram a se organizar as grandes redes, os grandes engolindo os pequenos. A Catarinense, de Vilhena, logo estendeu um braço até Porto Velho; em Ji-Paraná, os Postos Vitória chegaram a dominar mais de 90% do mercado, assim como os Testoni, em Pimenta Bueno e Ouro Preto. Com isso, mais a explosão do crescimento econômico e da migração, a galonagem (volume de vendas) atingia níveis estratosféricos.
Para se ter uma idéia, Megumi Yokoyama, o dono do Itaporanga, posto que opera até hoje em Pimenta Bueno, no alto do morro que dá acesso a Espigão do Oeste (agora nas mãos do Grupo Cairu), chegou a receber um prêmio das mãos de Robert J. Broughton, então presidente mundial da Royal Dutch Shell. O dito cujo se abalou da Holanda, sede da multinacional de petróleo, para conferir ao Pedrinho Japonês - hoje pacato criador de peixes em cativeiro - o título de maior revendedor de óleo diesel da Amazônia: eram mais de 1,6 milhão de litros por mês, o equivalente a uma carreta e meia vendidas por dia.
E, no meio desse tubaronato, lá vinham os bocós dos Macena - pais, funcionários públicos federais aposentados, e filhos, apenas jovens com muita coragem, e disposição ainda maior para o trabalho, mas com pouquíssimo conhecimento e malícia sobre as artimanhas, safadezas e sabotagens de que se vale o comércio quando a concorrência é brutal - achando que iam fazer grandes sucessos.
E, de fato, fizeram. Após uma longa guerra de bastidores, a família conseguiu transferir para o lote que haviam adqurido na Kapa 24, esquina com a Linha 25, em Pimenta Bueno, uma concessão que o CNP havia emitido lá pros fundões de Primavera de Rondônia, na Linha 37.
Excelente ponto e localização melhor ainda: como, naquela época, os postos que funcionavam no perímetro urbano, como o Itaporanga, eram obrigados a fechar entre 8 da noite e 6 da manhã (isso mesmo, moçada: não tinha posto aberto 24 horas pra todo mundo zoar - venda de combustível era questão de segurança nacional, enquanto hoje... kkkkk), o Posto Pioneiro começou a botar pra quebrar.
Como podiam trabalhar 24 horas por dia, os caminhões toreiros - esses, aliás, merecem um capítulo à parte nessa história - não precisavam mais esperar as 5 da manhã; subir a rodovia até o Itaporanga; descer de volta, só nisso gastando uma hora e meia; pegar a Linha 25 de volta, lá pelas 7 da manhã, em meio a atoleiros infernais até chegar na Kapa 24, por volta das 8 e meia, e dali seguir viagem para os cafundós de São Felipe e Parecis para, de lá, trazer os milhares de metros cúbicos de mogno e cerejeira extraídos pela Sincol, pelo Cláudio Wink, por seu Leonardo Crippa e por dezenas de outros madeireiros da época (esse percurso quem conhece muito bem, desde aquele tempo, é o hoje governador Ivo Cassol, que muitas vezes abasteceu no “postim da kapa”, apelido que o Pioneiro logo ganhou no mercado).
Com o “postim” - três bombas da Texaco plantadas em “L” na esquina, um bolicho e um barracão - aberto o tempo todo, os toreiros de Pimenta Bueno podiam sair de casa às duas da manhã, pegar direto a Kapa 24 e abastecer a qualquer hora. Os irmãos Macena, com o radinho de pilha em cima da bomba, nem esperavam: bastava ouvir a buzina, pulavam da cama, cada um catava a sua manivela e iam pro pátio. Não compensava ligar o “burrão” (o grupo gerador MWM) para abastecer “apenas” dois ou três tambores de 200 litros, ou um “Cheba véio catracado”: era na munheca mesmo.
Resultado: com menos de três meses, o Pioneiro já batia os 250 000 litros de galonagem mensal, enquanto, em Ji-Paraná, levava quase um ano para virar realidade uma outra concessão do CNP, arrancada em Brasília a ferro e fogo pela D. Tereza Macena e José Augusto (“Vai, Augusto, vai cuidar da sua família em Rondônia e vê se trabalha direito”, trovejou o general Oziel, czar do órgão federal e responsável último por assinar o documento, ao entregar aos dois o precioso papelzinho verde).
O segundo posto dos Macena foi o primeiro a romper o monopólio da rede Vitória, então com quatro ou cinco unidades espalhadas por toda a cidade, vendendo 3 a 4 milhões de litros por mês, no geral, mais um TRR, Terminal Revendedor Retalhista, que só vendia óleo diesel a granel para grandes consumidores. Com quatro bombinhas da Shell plantadas num terreno de chão batido, cobertas apenas por umas três Eternits em meia-água sobre as duas ilhas, uma de gasolina e outra de disel, mais um barraquinho de madeira que servia de escritório, sem troca de óleo, sem mais nada, na esquina da Avenida Brasil com a T-20, ele chegava aos 300 000 litros de galonagem com menos de quatro meses de funcionamento.
Foi quando os brasilienses começaram a incomodar quem já era muito poderoso naquela época, imagine hoje... De uma hora para outra, os caminhões-tanque, que levavam 12, no máximo 16 horas para fazer a viagem da base de distribuição da Texaco em Porto Velho até Pimenta Bueno, começaram a gastar um, dois e até três dias para chegar ao “postim da kapa”. Até que um dia...
Bom, isso fica pro próximo episódio.
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