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Carlos Macena
(segunda-feira, 15/09/08)
Por dentro da nova terra
Vencidos o areião do Évora e os caminhoneiros-assaltantes, a valente Brasília cruzou o Portal da Amazônia na manhã de 5 de julho de 1982. Vilhena era pouco mais que um entreposto de oficinas, retíficas, lojas de autopeças, lubrificantes, motosserras - verdadeiro ponto de apoio mecânico-hoteleiro organizado, um bênção para quem há tempos não sabia o que era banho quente e cama com lençóis limpos. A cidade, no entanto, já demonstrava o ar civilizado, esboçava as ruas ajardinadas e a maneira de ser que a fez a mais cosmopolita entre todas de Rondônia.
Até chegar a Porto Velho, a travessia teve os atoleiros inevitáveis, a comida improvisada à beira da estrada e as provas de solidariedade com o que os brasileiros costumam se brindar quando em situações-limite. Ônibus lotados de migrantes faziam baldeações heróicas de um lado a outro dos lamaçais, com crianças sendo carregadas de colo em colo e as “traias” meio despencando meio se juntando, todo mundo animado, fazendo troça, mas muitos xingando, principalmente no trecho “amontanhado” entre Jaru e Ouro Preto, a cargo da Queiroz Galvão, que, por ser um dos mais atrasados no cronograma das obras, era dos que mais faziam sofrer os viandantes.
Na capital, o aprendiz de repórter Carlos Pedro, ainda com o entusiasmo dos 18 anos, e de quem cursava o 4º semestre de Jornalismo em São Paulo, foi azucrinar um alto funcionário da Casa Civil do governo de então, Sérgio Ricardo Vieira Gonçalves, atualmente muito bem-posto no TCE (e em tratamento de saúde em Brasiília o qual, esperamos todos, seja o mais bem-sucedido possível), e que recebeu o perguntador implacável no Palácio Getúlio Vargas, com toda lhaneza e cortesia, entre curioso e divertido com as inquirições inevitáveis sobre o desenvolvimento que se desenhava no horizonte, os desafios do governo etc etc., todas destinadas a alimentar reportagem a ser publicada em “O Estado de S. Paulo”, mas que, pela camaradagem que havia entre o jovem Carlos Pedro e o então editor do jornalão paulista, Tadeu Afonso, depois assessor do senador FHC na Constituinte de 1988, foi sabiamente reescrita, por obra da inexperiência do primeiro, e nunca publicada, por força da profunda competência e sabedoria do segundo...
***
De volta a Brasília, “estava cruzado o Rubicão”, ou melhor, estava tomada a decisão: vendida a casa na Asa Norte, a família Macena comprou uma F-4000, um grupo gerador MWM de bom tamanho, juntou os cacarecos e debandou.
Rumo escolhido: Ji-Paraná, onde o empresário Jose Otonio oferecera uma vaga de gerente em um de seus postos de gasolina para o pai, José Augusto, ex- funcionário de carreira do Ministério das Minas e Energia e ex-fiscal do CNP. O monopólio dos Postos Vitória na área de combustíveis e gás de cozinha, que já durava pelo menos duas décadas, precisava ser defendido com unhas e dentes, e nada melhor que alguém com excelentes contatos em Brasília para ajudar a preservá-lo... Por ironia do destino, foram justamente esses contatos que ajudaram a quebrar aquele domínio quase imperial, menos de um ano depois - mas isso já é outra história...
Enquanto Jose Otonio assinava cheques para a Shell e a Petrobras com seu nome gravado em letras douradas nas folhas do talão - e desfilava no único Ford Del Rey Ghia preto da cidade, antes de também comprar a primeira F-1000 cabina dupla com faróis de milha no santantônio -, José Augusto andava pra cima e pra baixo numa das Pampas cinza recém-adquiridas, placas JP 5395, – a 5385 era pilotada pelo José Olímpio e a 5365 pelo José Odilio.
O resto da família foi se ajeitando. A irmã Yuka entrou no Bamerindus, Sávio e Carlos Antonio foram descobrir onde aplicar o que restara do dinheiro da venda da casa – e descobriram uma bela propriedade na Kapa 24, em Pimenta Bueno, na esquina com a Linha 25, de propriedade do José Maria Moreira, o mesmo do Bazar Moreira, que até hoje vende suas confecções no centro de Rolim de Moura - enquanto Carlos Pedro foi trabalhar na Câmara de Vereadores, como redator de atas das sessões legislativas, transcrevendo das fitas cassete os pronunciamentos feitos por suas excelências João Alberto Garcia, Ernandes Viana, Dorival Bernardi, Manoel Félix do Nascimento e Jorcelém Moreira da Silva, entre outros, durante as sessões legislativas que ocorriam nas noites de quarta-feira. Pense num empreguinho palpitante, desafiador, repleto de peripécias...
Uma das mais saborosas aconteceu numa noite especialmente modorrenta, de dar sono em sentinela, quando Ernandes Viana (aos olhos ingênuos do jovem repórter de então, um aguerrido defensor dos direitos dos oprimidos, quase um PT) trombeteava contra uma decisão qualquer do então prefeito Roberto Jotão Geraldo, quando, de repente, Manoel Félix pede um aparte, que lhe é concedido, e sapeca: “Sr. Presidente, quero aqui registrar meu protesto contra esses vereadores que ocupam a tribuna apenas para proferir besteiras bobônicas e faraônicas”. Hoje circunspecto procurador do Detran em Porto Velho, Ernandes Viana só não cobriu seu oponente de bolacha por que, rápido, a turma do deixa-disso entrou em cena. Manoel Félix ainda sapateou uns cinco minutos mas acabou se conformando em ficar sentadinho até o fim da sessão. Bufando, mas sentado.
Ji-Paraná, no entanto, era muito mais que isso. Outros personagens ilustravam a cena da cidade, como a moçada que agitava as festas na casa de Mário Matana, da Lamy Compensados, e do Ney Góes, no bairro Casa Preta; os frequentadores do Terraço, do Biroska, da Toca da Rute, da Baby Sorvetes, aberta pela família de seu Vicente, violeiro afamado na cena cultural paulistana, as baladas em Ouro Preto, um romance maravilhoso com uma extensionista da Emater, filha de um dos maiores técnicos de futebol – e mecânico - que já passaram pela cidade, exímia jogadora de vôlei do time da cidade e hoje uma serena mãe de família em Boston (EUA), os bailes no Vera Cruz, onde, certa vez, durante uma briga de Carnaval, uma cadeirada certeira alvejou Solivan Ferreira bem no meio da testa, mas tudo isso fica para próximo episódio.
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