Fé, razão e emoção
outubro14, 2007 7h54 Por Fernando Collor
Somos todos dotados de dois dons essenciais à vida em comum: razão e emoção. A razão é a manifestação de nossos pensamentos, a emoção de nossos sentimentos. Assim como na vida privada usamos ambos, segundo nossas tendências, nossa cultura e nossa herança genética, também em nossas atividades ora recorremos à razão, ora aos sentimentos. Nossa religião, por sua vez, depende da nossa fé. Ela nos permite um requisito essencial à paz espiritual, a diferença entre o bem e o mal. Nossa cultura nos dota de uma convicção comum, para distinguirmos entre o certo e o errado, da mesma forma que o Direito e o ordenamento jurídico nos dizem o que é legal e permitido e o que é ilegal e proibido, sob pena de uma sanção. Nossos sentimentos nos dizem se achamos bela uma obra de arte, como uma música ou um quadro ou, ao contrário, se ela não nos impressiona nem nos agrada. Esse sentimento constitui nossa estética, algo individual que nos faz apreciar ou depreciar as manifestações artísticas.
Assim como a vida pessoal, a vida pública também possui os seus padrões e critérios. O critério da Economia é o lucro. Podemos, até, nos lançarmos a certos empreendimentos de cunho econômico, que não objetivem o lucro. Mas ninguém conhece uma empresa que tenha por objetivo o prejuízo. Na vida pessoal, não buscamos só o lucro, mas seguramente perseguimos os benefícios que a Economia pode nos proporcionar, daí a utilidade da moeda. Logo, o lucro, ou se quisermos o sucesso econômico, é a busca que a ciência econômica nos ensina. Tanto a cada um de nós pessoalmente, quanto a todos os países e nações civilizadas.
Se há critérios distintivos pelos quais o sucesso ou o insucesso de qualquer atividade pode e deve ser avaliada, qual será o critério distintivo da Política? Poderíamos usar o do bem e do mal, que sabemos distinguir instintivamente. Mas esse é o critério da religião. Do certo e do errado, mas esse é o da ética; o sucesso ou o insucesso, mas esse é do campo da Economia. Primeiro Maquiavel e, cinco séculos depois, o sistematizador da Economia, Max Weber, nos forneceram o caminho segundo o qual na Política podemos e devemos utilizar critérios éticos. Nessas condições, nos indicaram a existência de duas éticas. A da vida privada, Weber chamou de “ética da convicção”, representada pelo conselho: faz o que deves, “de acordo com a tua consciência”. E a da vida pública ele denominou “ética da responsabilidade”. Nesse sentido, o homem público deve se valer não de suas convicções pessoais, mas sim daqueles meios que lhe proporcionem os fins que ele tem em vista para a coletividade que dirige, pois por eles será responsabilizado.
É por isso que os especialistas definem as decisões políticas como escolhas viáveis entre alternativas possíveis. A definição parece lógica. Afinal, se forem inviáveis, as decisões não serão possíveis. E se forem impossíveis, serão logicamente inviáveis. O que está envolvido na solução desses problemas? Seguramente a razão, jamais a emoção, pois para isso somos dotados de ambos os dons. As decisões políticas que desprezam a razão e se baseiam apenas nas emoções, nos impulsos e nos sentimentos, costumam ser inviáveis ou impossíveis. E, assim como o critério que distingue a Política é o da eficácia, uma vez que o da ineficácia torna as decisões inviáveis ou impossíveis, temos que nos habituar a buscar o máximo de racionalidade para conseguirmos o máximo de viabilidade.
Como razão e emoção são dons que se contrapõem, as decisões que nos impõem a razão, excluem necessariamente a emoção. Por isso, tomarmos decisões por impulso emocional nos impõe o risco de serem irracionais. E, como vimos, decisões irracionais são inviáveis, já que decisões políticas, vale lembrar, não são mais que alternativas viáveis, pois se forem inviáveis é impossível adotá-las, exatamente por serem irracionais.
Fernando Collor é senador (PTB-AL)