Abril de 2007 | Duizith | Cristian Menezes | Márcio Acciolly
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    Márcio Accioly - Coluna anterior - Coluna posterior
    (quinta-feira, 05/04/07)

    Especialista em fabricar crises (por visível despreparo no exercício da função), o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP) disse em jantar com senadores, na última terça-feira (03), que a CPI do Apagão Aéreo “seria uma desmoralização da Aeronáutica”.
    Dessa forma, chegamos à conclusão que o melhor a ser feito é nunca investigar nada com relação a coisa nenhuma. Percebe-se que apontados desvios e desmandos da Infraero causam preocupação, mas o foco da questão começa a ser redirecionado.
    Naquela mesma terça-feira, o PP elegeu o deputado federal Nélio Dias (RN) para sua presidência. Na ocasião, o também deputado Mário Negromonte (PP-BA), vejam só, pediu “respeito aos companheiros que foram sacrificados”.
    Sua excelência se referia, em especial, ao deputado cassado Pedro Corrêa (PE) e ao ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti (PE), os quais, em sua opinião, “têm sido injustamente perseguidos”. Negromonte recomendou, ainda, “dirigir o carro sem olhar no retrovisor”. Seguindo em frente e esquecendo os atropelos no caminho.
    O problema é que desvios na administração pública nacional acontecem todos os dias e ninguém é punido. Agora mesmo, a Polícia Federal descobriu um esquema de fraude no Amapá que envolve até o governador Walder Góes (PT), no roubo de um montante de 20 milhões de reais!
    Sem contar que a CPI do Mensalão acaba de completar um ano, com o triste saldo de ninguém ter sido preso, virado réu ou responsabilizado diretamente por comprovadas falcatruas no escandaloso processo.
    O jeito é continuar dirigindo “sem olhar no retrovisor”, como aconselha Mário Negromonte, mas vai faltar combustível. Os larápios estão carregando tudo e a galhofa caiu na desmoralização generalizada. Só não tem como se exigir respeito: o substantivo é letra morta desde há muito.
    Como o Brasil é administrado de fora para dentro, entregando-se minérios e matérias-primas aos nossos algozes, resta aos atores da cena política cuidar de encher as próprias burras e gozar privilégios infindos.
    Há alguns meses, em entrevista na qual cometeu atos falhos e se expôs com sinceridade, o ex-presidente FHC confessou sentir “saudades”, unicamente, “do helicóptero da Presidência e da piscina do Palácio da Alvorada”.
    FHC desnacionalizou a economia em 78% e causou dano imensurável ao país. Os prejuízos só poderiam ser revertidos, no caso de investigação profunda e anulação de certas “privatizações”. A doação da Vale do Rio Doce, por exemplo.
    Mas o que se constatou foi a continuidade seqüencial da bandalheira. Com o agravante de que o partido que se arvorava de ético (PT) trouxe, em suas fileiras, um sem número de esfomeados que parecem querer compensar o atraso numa velocidade maior que a do trem bala francês.
    É lamentável que as CPIs resultem em nada e que os desmandos continuem no mesmo ritmo, espalhando-se por estados e municípios. Nesse descaso, reside parte da violência que se assiste e que se instala em definitivo.
    O descrédito de larga parcela de nossas autoridades, em amplas áreas dos três poderes, desestrutura o Estado e fomenta a baderna. Numa sociedade onde os principais agentes do poder público são identificados como transgressores, torna-se impossível exigir o cumprimento de normas e regras a simples cidadãos mortais.
    O descaso do poder público brasileiro desconhece limites. Alimenta-se no desencanto da população e se fortifica. O quadro tende a piorar, e muito, antes de ruir.
    E-mail: accioly@tba.com.br

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