RECEIOS E FUNDAMENTOS
Márcio Accioly -
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(quinta-feira, 05/04/07)
Especialista em fabricar crises (por visível despreparo no exercício da função),
o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP) disse em jantar com senadores, na
última terça-feira (03), que a CPI do Apagão Aéreo “seria uma desmoralização
da Aeronáutica”.
Dessa forma, chegamos à conclusão que o melhor a ser feito é nunca investigar
nada com relação a coisa nenhuma. Percebe-se que apontados desvios e desmandos
da Infraero causam preocupação, mas o foco da questão começa a ser redirecionado.
Naquela mesma terça-feira, o PP elegeu o deputado federal Nélio Dias (RN)
para sua presidência. Na ocasião, o também deputado Mário Negromonte (PP-BA),
vejam só, pediu “respeito aos companheiros que foram sacrificados”.
Sua excelência se referia, em especial, ao deputado cassado Pedro Corrêa
(PE) e ao ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti (PE), os quais, em
sua opinião, “têm sido injustamente perseguidos”. Negromonte recomendou,
ainda, “dirigir o carro sem olhar no retrovisor”. Seguindo em frente e
esquecendo os atropelos no caminho.
O problema é que desvios na administração pública nacional acontecem todos
os dias e ninguém é punido. Agora mesmo, a Polícia Federal descobriu um
esquema de fraude no Amapá que envolve até o governador Walder Góes (PT),
no roubo de um montante de 20 milhões de reais!
Sem contar que a CPI do Mensalão acaba de completar um ano, com o triste
saldo de ninguém ter sido preso, virado réu ou responsabilizado diretamente
por comprovadas falcatruas no escandaloso processo.
O jeito é continuar dirigindo “sem olhar no retrovisor”, como aconselha
Mário Negromonte, mas vai faltar combustível. Os larápios estão carregando
tudo e a galhofa caiu na desmoralização generalizada. Só não tem como se
exigir respeito: o substantivo é letra morta desde há muito.
Como o Brasil é administrado de fora para dentro, entregando-se minérios
e matérias-primas aos nossos algozes, resta aos atores da cena política
cuidar de encher as próprias burras e gozar privilégios infindos.
Há alguns meses, em entrevista na qual cometeu atos falhos e se expôs com
sinceridade, o ex-presidente FHC confessou sentir “saudades”, unicamente,
“do helicóptero da Presidência e da piscina do Palácio da Alvorada”.
FHC desnacionalizou a economia em 78% e causou dano imensurável ao país.
Os prejuízos só poderiam ser revertidos, no caso de investigação profunda
e anulação de certas “privatizações”. A doação da Vale do Rio Doce, por
exemplo.
Mas o que se constatou foi a continuidade seqüencial da bandalheira. Com
o agravante de que o partido que se arvorava de ético (PT) trouxe, em suas
fileiras, um sem número de esfomeados que parecem querer compensar o atraso
numa velocidade maior que a do trem bala francês.
É lamentável que as CPIs resultem em nada e que os desmandos continuem
no mesmo ritmo, espalhando-se por estados e municípios. Nesse descaso,
reside parte da violência que se assiste e que se instala em definitivo.
O descrédito de larga parcela de nossas autoridades, em amplas áreas dos
três poderes, desestrutura o Estado e fomenta a baderna. Numa sociedade
onde os principais agentes do poder público são identificados como transgressores,
torna-se impossível exigir o cumprimento de normas e regras a simples cidadãos
mortais.
O descaso do poder público brasileiro desconhece limites. Alimenta-se no
desencanto da população e se fortifica. O quadro tende a piorar, e muito,
antes de ruir.
E-mail: accioly@tba.com.br