SEM A MENOR DISTINÇÃO
Márcio Accioly-
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(quinta-feira, 22/03/07)
Antes
de assumir de forma preponderante o cunho tão somente depreciativo dos nossos
dias, o substantivo masculino “cinismo” definia uma doutrina filosófica
da Grécia antiga, fundada por Antístenes de Atenas, e difundida por ele
e Diógenes de Sinope, lá pelos idos dos séculos V e IV a.C.
Significa “profunda falta de confiança na natureza humana e suas motivações”,
assegurando que “a virtude é o único bem e sua essência reside no autocontrole
e independência”. O adepto dessa escola é desencantado, sem ilusões!
No Brasil em especial, o adjetivo “cínico” virou sinônimo de “desavergonhado”,
“safado” e “descarado”, entre outros menos aconselháveis. É assim como um
eufemismo que as ações do desmoralizado cotidiano, principalmente na área
política, vão se encarregando de mergulhar, também, na vala comum.
Pois foi de “cínico”, no sentido meramente pejorativo, que muita gente tratou
de qualificar o encontro político acontecido na última quarta-feira (21),
entre o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-92), atual senador
(PTB-AL) e o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), nosso amável beberrão.
Ainda no primeiro mandato presidencial, Collor de Mello cuidava de desancar
o atual mandatário, lembrando a oposição ferrenha sofrida na pele durante
sua própria gestão (que terminou em impeachment), e as ações “criminosas”
dessa administração.
Numa entrevista a emissora de rádio da capital pernambucana, Collor falou
a respeito de José Genoíno (PT-SP), cujo irmão, deputado estadual no Ceará,
teve um assessor preso no aeroporto de Guarulhos, com milhares de dólares
na cueca.
Falou também das estripulias de Zé Dirceu, ex-chefe da Casa Civil petista
e deputado (SP) cassado pela Câmara, além de citar Luís Gushiken e outros
indiciados por “formação de quadrilha”, na denúncia efetuada pelo procurador-geral
da República.
O bom de tudo isso é que, apesar de não dizer uma só palavra a respeito
da violência que mergulha o país em guerra-civil sem controle, nem oferecer
proposta de solução aos graves problemas que assolam de Norte a Sul, Dom
Luiz Inácio descobriu o caminho das pedras.
O negócio é distribuir dinheiro através das bolsas-família, bolsas-esmola
e bolsas-miséria, alcançando regiões que a maioria de seus antecessores
sequer imaginou existir, como forma de dividir para reinar.
Porque as chamadas classes médias já se conscientizaram de que as propostas
de nosso amável beberrão nada mais foram do que bem orquestrado canto de
sereia! E o país se mostra repartido bem ao meio. Não se tem em absoluto
a quem apelar.
Como ninguém tem crédito, e os chamados “oposicionistas” estão sempre a
postos para recolher prebendas, eis que caminhamos em direção a funesto
desfecho que já se afigura inevitável.
E nem é preciso ter bola de cristal para prever o desastre (e saber que
virá)! Como na música, “Um Índio”, de Caetano Veloso, “virá tranqüilo e
infalível como Bruce Lee”. Dando golpe de misericórdia na organização social
perplexa e atabalhoada.
Pois Dom Luiz Inácio, deslumbrado com a função para qual não está à altura,
encontrou novas classes de heróis: ministros, usineiros e similares, dissociado
da imensa penúria e desamparo da maioria.
De maneira que tudo se encontra misturado e não há mais como saber o que
é água e o que óleo é, embora se observe o líquido borbulhante no caldeirão
social e se perceba a existência dessas substâncias. É muito cinismo, na
pura definição popular!
E-mail: accioly@tba.com.br
GUERRA AQUI, GUERRA ACOLÁ
Márcio Accioly
(segunda-feira, 19 de março de 2007)
Uma
das imagens mais impressionantes, registrada logo no início dessa desnaturada
“guerra” movida pelos EUA e Inglaterra contra o Iraque, foi a de um menino
atingido por bombardeio ianque, gritando que queria seus braços de volta,
arrancados brutalmente numa explosão.
Ao lado do garoto jazia toda sua família: pai, mãe e irmãos, mortos num
piscar de olhos, sem dó nem compaixão. Mais tarde, através de premiado documentário
produzido pelo cineasta norte-americano Michael Moore, pudemos constatar
como os soldados da Terra do Tio Sam atiram em tudo que se move, de dentro
de seus tanques.
O primeiro-ministro Tony Blair não perdeu aquela ocasião: levou a criança
para Londres e tratou de providenciar próteses que “substituíssem” os membros
perdidos. E nunca mais se ouviu falar na história, tampouco no menino.
Hoje, apesar de crescentes manifestações contrárias ao criminoso conflito,
eis que os donos do mundo não dão a menor importância. Numa prova de que
a democracia dita representativa, tão louvada pelos defensores dos chamados
valores sociais, é conversa pra boi dormir.
Trabalha-se o tempo todo em cima de pesquisas. Enquanto as populações dos
EUA e da Inglaterra entendiam ser o conflito um real resgate de princípios
adormecidos, a coisa caminhou na calmaria. Afinal, as bombas estão explodindo
a milhares de quilômetros de suas cabeças e os civis mortos não assinalam
qualquer parentesco.
Mas, depois que os soldados norte-americanos começaram a chegar dentro de
caixões em maior número (na última segunda-feira, 19, eles já contabilizavam
3.218 corpos), a cantilena mudou. Os ingleses estão morrendo em menor quantidade:
na mesma data, eles eram apenas 134. O problema é que não existe solução
à vista.
O fato é que George W. Bush, que na juventude foi preso dirigindo embriagado
e já foi também acusado de envolvimento com drogas pesadas; que usou o peso
familiar para fugir da Guerra do Vietnã e, no dia seguinte à derrubada das
duas torres, autorizou a saída de todos os integrantes da família Bin Laden
dos EUA, está perdido.
E muito mais perdido está o restante do planeta, no acirramento das diferenças
entre Oriente e Ocidente, com o poderio militar das grandes potências pretendendo
se impor em regiões ricas de petróleo. Um assalto praticado à luz do dia.
Maquiavel, que muitos citam e poucos entendem, foi gênio porque descobriu
a previsibilidade do ser humano, vitimado nas mesmas ambições e fraquezas
seja qual for o rincão que habite.
E George Orwell (1903-50), notável escritor inglês, anotou em seu “1984”
que a atividade do “duplipensar” é característica que serve como norma diretiva
aos detentores do poder, permitindo que lemas e bandeiras sejam utilizadas
em sentido oposto, dependendo do uso ou conveniência.
Dessa forma, no Ministério do Amor pratica-se a tortura. “Guerra é Paz”,
“Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”. Quando presidia a WWF (World
Wildlife Fund), que deveria proteger espécies ameaçadas, o príncipe Philip
matou com tiro de rifle um tigre belíssimo na Índia, apenas para testar
a pontaria.
Na mesma viagem, em Katmandu, no Nepal, matou uma elefanta cujo filho fugiu
em desespero. Punha em prática, dessa forma, o exercício do duplipensar.
Os que têm mente de colonizados se quedam diante de monarquias podres e
migalhas oferecidas pelos que buscam se eternizar no poder. Não resta dúvida:
estamos condenados à própria destruição, enquanto pregamos a salvação da
alma. Duplipensar!
E-mail: accioly@tba.com.br
PROCURA-SE O RESPONSÁVEL
Márcio Accioly
(sábado, 17/03/07)
Paga-se um tostão de mel coado a quem for capaz de
dizer, com segurança, quem é culpado pelas mazelas que afligem o país chamado
Brasil. Só para ficarmos na chamada Nova República, advinda com a queda
do regime militar que durou 21 anos (1964-85), não foi José Sarney (1985-90),
apesar das suspeitas e pesares.
Como se sabe, a gestão sarnenta era considerada a mais corrupta da história
nacional (teve até pedido de impeachment arquivado pelo deputado federal
Inocêncio Oliveira, no exercício da presidência da Câmara), até que surgiu
cidadão chamado FHC (1999-2003). Este último se tornou “hors-concours”.
Na “administração” Sarney assistiu-se a verdadeiro festival de distribuição
de emissoras de rádio, com os jornais da época alardeando que serviam tão
somente para a conquista de mandato presidencial de cinco anos.
Sarney, servidor inconteste do regime que findava, havia sido indicado candidato
a vice-presidente na chapa encabeçada pelo mineiro Tancredo Neves, em 1985,
disputando o Palácio do Planalto, vejam só, contra Paulo Maluf (PP-SP).
Maluf, o mesmo que ora está impedido de viajar para os EUA, ou qualquer
outro país que com ele tenha tratado de extradição, sob pena de terminar
trancafiado numa penitenciária qualquer. No Brasil, como deputado federal,
vive cheio de prerrogativas.
Na campanha presidencial de 85, a eleição seria indireta, no Colégio Eleitoral.
A Constituição de então dizia que o mandato presidencial durava seis anos.
Tancredo Neves passou o tempo inteiro prometendo um mandato de quatro anos.
Eleita a chapa Tancredo/Sarney, o ex-governador de Minas Gerais foi internado
no Hospital de Base de Brasília (DF) e submetido à cirurgia delicada (diverticulite),
morrendo sem tomar posse e causando comoção nacional!
Que fez Sarney? Disse que iria “reduzir”, sim, o mandato presidencial, em
um ano (esquecendo a promessa de campanha), comprando, segundo os jornais
de então, os votos parlamentares necessários à mudança constitucional, através
da distribuição de concessão de emissoras de rádio. E presidiu por cinco
anos.
Na gestão do maranhense, a inflação atingiu mais de 86% ao mês! Por conta
disso, e dos desmandos, tornou-se tão impopular que, na campanha para a
sua sucessão (1989), o candidato Fernando Collor de Mello prometeu, no horário
eleitoral, arrancá-lo do assento presidencial “pelo bigode”.
Aconteceu é que Collor terminou, ele mesmo, arrancado do Palácio do Planalto
num processo de impeachment, debaixo de saraivada de acusações (que incluía
a de formação de quadrilha), como nunca se tinha tomado conhecimento antes.
Agora, eleito senador por Alagoas, depois de 17 anos, Collor fez um discurso
na última quinta-feira (15), com direito a elogios e choro, conciliando-se
com seus detratores de ontem, alguns deles acusados em desvios de hoje.
E chegou-se à conclusão de ter sido tudo uma enorme injustiça, farsa absurda,
que nada do que se afirmara aconteceu de fato, sendo, na realidade, pura
invenção. Depreende-se, pois, que seu ex-tesoureiro, PC Farias, morreu em
vão.
É certo que não se tem conhecimento de onde tenha ido parar o volume de
recursos financeiros que se garante ter sido carregado. O ex-presidente
só pediu desculpas por ter promovido o confisco do dinheiro de todos que
lhe confiaram o voto.
A ex-ministra da Fazenda de Collor, Zélia Cardoso de Mello, foi absolvida
de todas as acusações imputadas e mora hoje em Nova Iorque num apartamento
na Quinta Avenida. Afinal, quem é o culpado pela corrupção no Brasil? Cartas
à redação.
E-mail: accioly@tba.com.br
AOS TRANCOS E BARRANCOS
Márcio Accioly
(quinta-feira, 15/03/07)
O
senador Alfredo Nascimento (PR-AM) está fugindo da imprensa como o diabo
foge da cruz! O presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP) ficou muito inquieto
com o fato de o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) ter aproveitado
o embalo das denúncias contra o PR (ex-PL) e afirmado que “o mensalão ainda
está em operação”.
A crise não se aprofundou, como seria de se esperar, devido à disputa em
torno da instalação da CPI do Apagão Aéreo, cuja decisão foi adiada pelo
STF (Supremo Tribunal Federal) em decisão do ministro Celso de Mello na
noite de quarta-feira (14).
O atual imbróglio teve início com entrevista do deputado federal Márcio
Junqueira (PFL-RR), ao jornalista Expedito Filho (Estado de S. Paulo), revelando
a oferta de cargos e vantagens no DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura
dos Transportes) “para que trocasse de partido”.
Um dia depois, o “assessor e sobrinho do deputado Aracely de Paula (PR-MG),
Emílio de Paula Castilho, foi detido pela Polícia Rodoviária Federal, próximo
a Brasília, com cerca de 80 mil reais em espécie”.
Na terça-feira (13), o líder do PR na Câmara, Luciano Castro (RR) concedeu
entrevista à Folha de S. Paulo em que defendeu a “fidelidade partidária
relativa” e disse que “não gosta de cargos”, mas quer o Ministério dos Transportes
“verticalizado”, o que significa “com todos os postos” e penduricalhos.
O Ministério estaria prometido novamente ao senador Nascimento que já esteve
no comando daquela pasta de 15/03/2004 a 31/03/2003. No dia seguinte à entrevista
do líder à Folha, o jornal publicou editorial em que classificou como “curiosa”
a teoria da “fidelidade relativa” com a qual Luciano Castro justificou o
“inchaço da sigla”.
No editorial foi dito que a partilha no governo federal “já se debruça sobre
diretorias e subdiretorias da Petrobras, dos Correios, de Furnas, prebendas
em portos, aeroportos e entrepostos”, numa repetição do escândalo que desaguou
em CPI recente.
Mas o que preocupa mesmo é Roberto Jefferson. Apesar de o líder do PR “não
gostar de cargos” e tudo caminhar como se diz, dentro dos conformes, eis
que sua legenda elegeu 25 deputados (23 do PL e dois do Prona, de cuja fusão
resultou o PR), mas contabilizou na última semana a marca expressiva de
39 deputados.
O inchaço chamou a atenção de Jefferson. Ele voltou a apontar o ex-presidente
do PL deputado Valdemar Costa Neto (que renunciou na última legislatura
para não ser cassado), como “figura de proa” de malfeitos que estariam sendo
ali levados a cabo.
Se o episódio continuar a repercutir, o possível retorno do senador amazonense
ao Ministério estaria ameaçado. Depende agora dos desdobramentos. O presidente
nacional do PR, Sérgio Tamer, encaminhou ao corregedor-geral da Câmara um
pedido de investigação contra o deputado Márcio Junqueira.
O PFL nacional já avisou que não irá deixar por menos e que não enxerga
motivos para investigar parlamentar de suas fileiras que tem mostrado disposição
para o trabalho e se destacado neste seu primeiro mandato.
A atividade política no Congresso Nacional está guardando preocupante semelhança
com a onda de criminalidade no Rio de Janeiro: todos os dias aparecem novidades
desastrosas e ninguém parece ter resposta que satisfaça o respeitável público.
Em lugar de se apurarem denúncias, o denunciante passa a sofrer ameaças.
As últimas CPIs foram decepcionantes, na quantidade de acusações comprovadas
e na absolvição de figuras que se transformaram em escárnio público. Dessa
forma, não há como exigir um respeito que não se impõe. É desmoralização
generalizada.
E-mail: accioly@tba.com.br